terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bárbara

Poderia ser tocada mil vezes, renegaria. O mundo a sua volta era só correria e ela, anestesiada. Dopada pelo vento, mexendo o cabelo penteado para trás, preso com o laço de fita azul-cobalto. Seu vestido, tão bem passado, engomado, arrumado e lindo era, agora, mero detalhe. Antes fora motivo de dúvida e chateação na hora da conturbada escolha. Tudo agora era detalhe, até o sapatinho preto, arremate final que reluzia, chamando atenção daqueles que a observassem pés-à-cabeça. Ela estava ali, mesmo não estando. Poderiam derrubar todas as casas da vizinhança; ora, que soltassem todos os cachorros do bairro! Trariam, quem sabe, um circo à sua frente... ela nem notaria. Estado de graça. Graça, essa, que se fez presente quando se arrumou toda para ir até o muro de casa. Já era a hora do seu êxtase diário. Quando todos os tambores do mundo rufaram, quando seu peito se encheu de ar; os olhos arregalaram-se e a boca ficou entreaberta. Será que pode o coração da gente parar por três segundos? Talvez acontecesse isso, somente com ela- e, oxalá, com outras pessoas. Queira Deus que existam outros amores iguais aquele. Avistou dali, subindo a ladeira, no final da rua, pertinho da linha do horizonte: Sua principal paisagem. E ainda que sua presença fosse insignificante, ela agora poderia dormir em paz, retornar à sua casa e ouvir as indagações de sua mãe sobre a procedência do sorriso permanente no canto da boca. E os olhos que pareciam lustrados com óleo de peroba. Ela tinha visto. Apreciado. Alimentado seu amor por mais um dia. O paquera estava ali, como todos os dias, no mesmo horário. O horário em que poderia ser tocada mil vezes, ela renegaria.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sem título, de novo

Preciso- com a urgência dos sem-futuro- fazer as pazes com teu passado. Por uma questão de sobrevivência: Ou o mato... ou morro eu. E, além de me salvar, salvo nosso futuro, também.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Prioridade

Antes de ser, sou tua.
Antes de pensar no que será de mim, penso em o que será de nós.
Antes de estar, estou contigo.
Antes de lembrar do mundo, tu vens.
Antes de estar feliz, procuro saber como você está.
Antes de qualquer motivo, está você.
Antes de respirar, espero você suspirar primeiro.
Só para garantir que tudo está bem para mim.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Medo

Eu temo tantas coisas na vida, amor da própria. Você nem imagina o quão você me amedronta com esse amor que, de tão intenso, dói. Vai ver é porque eu nunca amei ninguém e estou, até hoje, pisando num terreno desconhecido. A cada dia eu conheço mais de você e isso me emociona muito, eu me sinto completa e sincera quando digo “eu te amo” por me lembrar dos outros eu te amos momentâneos que disse a pessoas que nem conhecia. Me dá um nó na garganta e eu, que não sou nada dura na queda que o choro sempre me dá, me vejo aos prantos sem ter programado, em tantas madrugadas enquanto você dorme. Aprendi que seu sono é um dos meus maiores inimigos quando preciso demais de você, fico olhando seu cansaço de longe, querendo te acordar logo mas muitas vezes me contenho e fico te olhando dormir mais um pouco; outras vezes eu até te dou um beijinho e você me retribui com um sorriso que arranca outro muito maior e aí eu não resisto: me jogo em cima de você e automaticamente você entrelaça seus braços em minhas costas e pouco tempo depois volta a dormir. Mas continua me prendendo e em uma das minhas filosofias e análises da vida interpreto isso- quero interpretar, pra me sentir bem- com se nem dormindo você esquecesse de mim. E por isso eu temo, amor da minha rélis vida. Tenho muito medo de me ver sozinha no futuro, que eu demorei demais imaginando pra nós dois e daria muito trabalho tirar você, justo o protagonista; sem teu abraço e teu rosto colado ao meu quando dançamos juntos como eu nunca dancei com ninguém. Você me ensinou a dançar, por mais que você ache que eu já sabia antes. Me ensinou a dançar do seu jeito, criou a nossa dança que mais funciona de desculpa pra manter nossos corações mais perto do que pra exibir passos perfeitos. E por mais isso eu temo. Por tantas vezes tua ausência com esperança- aquela, de saber que ainda vai se ter- causa tanta urgência em minha alma que se eu imagino um dia tê-la sem essa esperança, mais uma vez, o pranto me vence. Eu tenho medo, amor da vida que é tua, que algo te leve de mim. Talvez o mundo e seus encantos; talvez a vontade Dele, que se junta a nós nessa dança e forma um par de três... e aí, eu não sei o que seria. Será que um dia você vai entender por que tantas vezes eu me emociono com teu abraço e seguro o choro pra você não ver? Acho que não. Você é lindo e bondoso demais pra perceber que o é. Acha que não emana tanto amor e continua sem me compreender, às vezes. Emana amor que preenche minha vida inteira; que me dá as respostas que procurei antes de saber da tua existência. E por isso eu temo.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Só pra não esquecer

Uns cigarros- desses, que destroem acordos e passam por cima de qualquer amor ou força de vontade- e umas cervejas- dessas que servem de desculpa pra várias coisas- o fizeram esquecer dela, da briga dos dois e do quanto ela valeria, ainda que ele tivesse brigado com ela por ciúme de outro alguém. Uma cama, um sono que não a fez esquecer dele, já que nem sequer veio. Contraditoriamente, não sabia ele que ninguém chegaria junto dela até que ele quisesse, até que ele a bastasse.
Ele- desses amores que erram e fazem questão de, de novo, errarem- a fez esquecer dele.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Toda fé que havia em mim

Das poucas certezas que eu podia ter em minha vida, uma delas era incisiva e acabava com o meu dia toda vez que se fazia de recordação: Não era para mim aquele sorriso. E justo nesse momento, me doía ter tão poucas certezas. Sendo eu só mais uma pessoa confusa, perdida e tão medrosa. E quantos milhões de pessoas existem iguais a mim!? Talvez, se houvesse mais certezas, essas, possivelmente, aquietariam a exaustão que se encontrava minh'alma toda vez que eu via aquele sorriso de novo. Era lindo... o mais lindo, mais aberto e o pior de todos os adjetivos: O mais sincero que eu já vi vir de você. Mas não era para mim. Por que essas coisas voltam a qualquer momento? Por que não podemos deletar certas cenas se tantas pessoas podem, simplesmente, nos deletar? E o que são cenas perto de pessoas? E tais pessoas- essas, que apagam pessoas- quando o querem, nos destroem, literalmente. Vai ver nem é por maldade, é por conveniência ou por... nada. De todas as formas, aquele sorriso verteu-se em lágrimas minhas. Essa minha mania de procurar o que não desejo encontrar ainda me causará danos mais sérios. Nem por isso, mas por essa tal de sorte aparecer só nessas horas: Eu sempre encontro.
Quem dera fosse isso tão somente posse, egoísmo. Mas, não. Embora esse embrulho no estômago, essas mãos geladas, esse tremor e essa brancura maior que o comum, sejam sintomas de várias outras doenças, com muito esforço, eu procuro e encontro uma palavra: Decepção. Você havia me dito que só eu tinha te feito tão feliz.
E eu acreditei, com toda fé que havia em mim.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Voltei

... Mas voltei. Voltei porque me dei conta de que você é muito maior que seus erros. Voltei somente porque meu cérebro conseguiu, sim, criar as cenas que jamais imaginei, mas não conseguiu reproduzir meu futuro sem você- nem em meu subconsciente você está ausente de mim. Voltei porque ficou uma sensação de ressaca, daquelas que a gente só cura com outro porre. E é só de você que eu me embriago. Voltei pra nossa casa, pro nosso "nosso", pro nosso nó. Voltei por não imaginar meu filho brincando com outro pai. Voltei, pois teu pranto doeu mais em mim que minha própria dor. Voltei por não saber dançar com outro par, nesta tão complicada e doce melodia que se chama "Existir". Voltei porque em hipótese alguma eu conseguiria ouvir a introdução de "Wish you where here" sem lembrar automaticamente da tua voz cantando os versos iniciais. Voltei por saber, embora por alguns instantes tenha fechados os olhos, que teu cinismo não existe quando ouço o que mais preciso. Voltei, confesso: Imaginei-te com qualquer outra- embora saiba que se caso um dia exista esta outra, ela será mesmo uma qualquer- e isso me doeu mais que qualquer mau efeito que você tenha me causado. Voltei porque não ia deixar a borracha que veio junto com meu orgulho, apagar teus tantos acertos por causa de poucos erros. Voltei, posto que mesmo estando sem você, eu continuaria não enxergando nada- nem ninguém. Voltei porque sei que fingir que não existes, não fará você não existir. Voltei, já que dois corpos que formam um só, não vivem sem ser no mesmo lugar. Voltei, pois meu pranto secou e eu pude voltar a escrever. Reli tudo o que escrevi chorando e sorri; eu voltei porque só você me faz pensar e traduzir pr'essas linhas tudo o que há de mais forte em mim. E devo guardar mais esta página, pra sorrir de novo, toda vez que reler.